terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vladmir Maiakovski

Vladimir Vladimirovitch Maiakovski (em russo: Влади́мир Влади́мирович Маяко́вский; Bagdadi, 7 de julho (calendário juliano); 19 de julho (calendário gregoriano) de 1893 – Moscou, 14 de abril de 1930) foi um poeta, dramaturgo e teórico russo, frequentemente citado como um dos maiores poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot.
 
  
      "A canoa do amor se quebrou no cotidiano."
      Eis um dos versos
      de um dos últimos poemas de Maiakovski,
      "Fragmentos",
      escrito na miséria e confusão de uma Rússia em declínio,
      de uma Rússia que mal havia se libertado dos grilhões
      e já tornava a tatuá-los na pele,
      de uma amante que dormia

      frente à imensidão da madrugada.
      Inútil o apanhado da mútua dor mútua quota de dano.
      E cá estamos nós, oitenta anos depois,
      diante dos estilhaços de papel da canoa.
      O suicídio do poeta, ou o seu poema final,
      foi o atestado de óbito da arte independente russa.
      Maliévitch, Kandinsky, Eisenstein, Meyerhold,
      e tantos outros, mutilados, castrados, expulsos.
      Iêssienen morto em um quarto de hotel
      escoando seu último verso
      com a última gota de vida.
      O mar se vai.
      “A arte da época stalinista entrará
      na história como a expressão
      mais espetacular do profundo declínio
      da revolução proletária”, escreveu Leon Trotsky.
      Maiakovski,
      o futurista,
      o bolchevique,
      o revolucionário permanente,
      o homem que era todo coração, nos diria:
      Camarada vida, vamos para diante,
      galopemos pelo quinquênio afora.
      E galopamos.


[Extraído da seção "Homenagem 80 anos sem Maiakovski", blog do Movimento A Plenos Pulmões (APP) - http://movplenospulmoes.blogspot.com.br/]


      “Ressuscita-me,
      nem que seja só porque te esperava
      como um poeta,
      repelindo o absurdo quotidiano!
      Ressuscita-me,
      nem que seja só por isso!
      Ressuscita-me!
      Quero viver até o fim o que me cabe!
      Para que o amor não seja mais escravo
      de casamentos,
      concupiscência,
      salários.
      Para que, maldizendo os leitos,
      saltando dos coxins,
      o amor se vá pelo universo inteiro.
      Para que o dia,
      que o sofrimento degrada,
      não vos seja chorado, mendigado.
      E que, ao primeiro apelo:
      - Camaradas!
      Atenta se volte a terra inteira.
      para viver
      livre dos nichos das casas.
      Para que doravante
      a família seja
      o pai,
      pelo menos o Universo,
      a mãe,
      pelo menos a Terra.”


      (trecho de “O amor”)


 

      A flauta vertebrada

      A todos vocês,
      que eu amei e que eu amo,
      ícones guardados num coração-caverna,
      como quem num banquete ergue a taça e celebra,
      repleto de versos levanto meu crânio.
      Penso, mais de uma vez:
      seria melhor talvez
      pôr-me o ponto final de um balaço.
      Em todo caso
      eu
      hoje vou dar meu concerto de adeus.
      Memória!
      Convoca aos salões do cérebro
      um renque inumerável de amadas.
      Verte o riso de pupila em pupila,
      veste a noite de núpcias passadas.
      De corpo a corpo verta a alegria.
      esta noite ficará na História.
      Hoje executarei meus versos
      na flauta de minhas próprias vértebras.

      E então, que quereis?...
      Fiz ranger as folhas de jornal
      abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
      E logo
      de cada fronteira distante
      subiu um cheiro de pólvora
      perseguindo-me até em casa.
      Nestes últimos vinte anos
      nada de novo há
      no rugir das tempestades.
      Não estamos alegres,
      é certo,
      mas também por que razão
      haveríamos de ficar tristes?
      O mar da história é agitado.
      As ameaças
      e as guerras
      havemos de atravessá-las,
      rompê-las ao meio,
      cortando-as
      como uma quilha corta
      as ondas.


 

      Garoto

      Fui agraciado com o amor sem limites.
      Mas, quando garoto,
      a gente preocupada trabalhava
      e eu escapava
      para as margens do rio Rion
      e vagava sem fazer nada.
      Aborrecia-se minha mãe:
      "Garoto danado!"
      Meu pai me ameaçava com o cinturão.
      Mas eu, com três rublos falsos,
      jogava com os soldados sob os muros.
      Sem o peso da camisa,
      sem o peso das botas,
      de costas ou de barriga no chão,
      torrava-me ao sol de Kutaís
      até sentir pontadas no coração.
      O sol assombrava:
      "Daquele tamaninho
      e com um tal coração!
      Vai partir-lhe a espinha!
      Como, será que cabem
      nesse tico de gente
      o rio,
      o coração,
      eu
      e cem quilómetros de montanhas?"


 

      O que aconteceu

      Mais do que é permitido,
      mais do que é preciso,
      como um delírio de poeta
      sobrecarregando o sonho:
      a pelota do coração tornou-se enorme,
      enorme o amor,
      enorme o ódio.
      Sob o fardo,
      as pernas vão vacilantes.
      Tu o sabes,
      sou bem fornido,
      entretanto me arrasto,
      apêndice do coração,
      vergando as espáduas gigantes.
      Encho-me dum leite de versos
      e, sem poder transbordas,
      encho-me mais e mais.



      Tu

      Entraste.
      A sério, olhaste
      a estatura,
      o bramido
      e simplesmente adivinhaste:
      uma criança.
      Tomaste,
      arrancaste-me o coração
      e simplesmente foste com ele jogar
      como uma menina com sua bola.
      E todas,
      como se vissem um milagre,
      senhoras e senhorias exclamaram:
      - A esse amá-lo?
      Se se atira em cima,
      derruba a gente!
      Ela, com certeza, é domadora!
      Por certo, saiu duma jaula!
      E eu júbilo
      esqueci o julgo.
      Louco de alegria
      saltava
      como em casamento de índio,
      tão leve, tão bem me sentia.



Inspirado em Maiakovski, Augusto de Campos cria "A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha" [abaixo]

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mario Benedetti

É tão pouco
 
O que conhece
é tão pouco
o que conheces
de mim
o que conheces
são minhas nuvens
são meus silêncios
são meus gestos
o que conheces
é a tristeza
da minha casa vista de fora
são os postigos da minha tristeza
a campainha da minha tristeza.
 
Mas não sabes
nada
no máximo
pensas as vezes
que é tão pouco
o que conheço
de ti
o que conheço
ou seja tuas nuvens
ou teus silêncios
ou teus gestos
o que conheço
é a tristeza
da tua casa vista de fora
são os postigos da tua tristeza
a campainha da tua tristeza.
Mas não tocas.
Mas não toco.
 
 
Balada do mau gênio
 
Tem dias que sinto um desinteresse
de mim, de ti, de tudo o que insiste em acreditar-se
e me sinto solidariamente cretino
apto para que em mim vacilem os rancores
e nada me pareça um aceitável presságio.
 
Dias em que abro o jornal com o coração na boca
como se aguardasse com certeza que meu nome
fosse aparecer nos avisos fúnebres
seguido da lista de parentes e amigos
e de todo o indócil pessoal às minhas ordens.
 
Tem dias que nem sequer são escuros
dias em que perco o rastro da minha pena
e resolvo as palavras cruzadas
com uma raiva feita para outra ocasião
digamos, por exemplo, para as noites de insônia.
 
Dias em que a gente sabe que há muito era bom
bem talvez não faz tanto que aparecia a lua
limpa como depois de um sabonete perfumado
e aquilo sim era autêntica melancolia
e não esse insano, doce tédio.
 
Bem, esta balada é só para te avisar
que nesses poucos dias não me leves a sério.
 
 
Coração couraça
 
Porque te tenho e não
porque penso em ti
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e digo amor
porque tu vieste recolher tua imagem
e é melhor do que todas as tuas imagens
porque és linda do pé até a alma
porque és boa da alma a mim
porque te escondes doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça
 
porque és minha
porque não és minha
porque te olho e morro
e pior que morro
se não te olho amor
se não te olho
 
porque tu sempre existes em qualquer lugar
mas existes melhor onde te quero
porque tua boca é sangue
e tens frio
tenho que te amar amor
tenho que amar
 
mesmo que esta ferida doa como duas
mesmo que te procure e não te encontre
e ainda que
a noite passe e eu te tenha
e não.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Gregório de Matos, "Boca do Inferno"

Vida e Obra

A cidade da Bahia
trecho da obra “Boca do Inferno”, de Ana Miranda

“A cidade fora edificada na extremidade interna meridional da península, a treze graus de latitude sul e quarenta e dois de longitude oeste, no litoral do Brasil. Ficava diante de uma enseada larga e limpa que lhe deu o nome: Bahia. A baía, de pouco mais de duas léguas, começava na ponta de Santo Antônio, onde tinha sido edificada a fortaleza do mesmo nome, e terminava aos pés da ermida de Nossa Senhora de Monserrate.”


Biografia

“Numa suave região cortada por rios límpidos, de céu sempre azul, terras férteis, florestas de árvores frondosas, a cidade parecia ser a imagem do Paraíso. Era, no entanto, onde os demônios aliciavam almas para povoarem o Inferno. ‘Esta cidade acabou-se’, pensou Gregório de Matos, olhando pela janela do sobrado, no terreiro de Jesus. ‘Não é mais a Bahia. Antigamente, havia muito respeito. Hoje, até dentro da praça, nas barbas da infantaria, nas bochechas dos granachas, na frente da forca, fazem assaltos à vista.’ ”
Idem Ibidem




A umas saudades
Gregório de Matos

           Parti, coração, parti,
           navegai sem vos deter,
           ide vos, minhas saudades
           a meu amor socorrer.

           Em o mar do meu tormento
           em que padecer me vejo
           já que amante me desejo
           navegue o meu pensamento:
           meus suspiros, formai vento,
           com que me façais ir ter
           onde me apeteço ver;
           e diga minha alma assi:
           Parti, coração, parti,
           navegai sem vos deter.
           Ide donde meu amor
           apesar desta distância
           não há perdido constância
           nem demitido o rigor:
           antes é tão superior
           que a si se quer exceder,
           e se não desfalecer
           em tantas adversidades,
           Ide vos minhas saudades
           a meu amor socorrer.


          Mote para o poema: DEFINE A SUA CIDADE


           “De dous ff se compõe
           esta cidade a meu ver
           um furtar, outro foder.
           (...)


TORNA A DEFINIR O POETA OS MAOS[*] MODOS DE OBRAR
NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE NAQUELA
UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.


           Que falta nesta cidade?................Verdade
           Que mais por sua desonra................Honra
           Falta mais que se lhe ponha........Vergonha
            
           O demo a viver se exponha,
           por mais que a fama a exalta,
           numa cidade, onde falta
           Verdade, Honra, Vergonha.

           Quem a pôs neste socrócio?.........Negócio
           Quem causa tal perdição?............Ambição
           E o maior desta loucura?...................Usura

           Notável desventura
           de um povo néscio, e sandeu,
           que não sabe, que o perdeu
           Negócio, Ambição, Usura.

           E que justiça a resguarda? ..........Bastarda
           É grátis distribuída?......................Vendida
           Quem tem, que a todos assusta?...Injusta

           Valha-nos Deus, o que custa,
           o que EL-Rei nos dá de graça,
           que anda a justiça na praça
           Bastarda, Vendida, Injusta.

           E nos Frades há manqueiras?.........Freiras
           Em que ocupam os serões?.........Sermões
           Não se ocupam em disputas?..........Putas.

           Com palavras dissolutas
           me concluís na verdade,
           que as lidas todas de um Frade
           são Freiras, Sermões, e Putas."



 

Inconstancia[*] dos bens do mundo
Gregório de Matos

           Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
           Depois da Luz se segue a noite escura,
           Em tristes sombras morre a formosura,
           Em contínuas tristezas a alegria.

           Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
           Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
           Como a beleza assim se transfigura?
           Como o gosto da pena assim se fia?

           Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
           Na formosura não se dê constancia,
           E na alegria sinta se tristeza.

           Começa o mundo enfim pela ignorância,
           E tem qualquer dos bens por natureza
           A firmeza somente na inconstância.



 
As cousas do mundo
Gregório de Matos

           Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
           Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
           Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
           O velhaco maior sempre tem capa.

           Mostra o patife da nobreza o mapa:
           Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
           Quem menos falar pode, mais increpa:
           Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

           A flor baixa se inculca por tulipa;
           Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
           Mais isento se mostra o que mais chupa.

           Para a tropa do trapo vazo a tripa
           E mais não igo, porque a Musa topa
           Em apa, epa, ipa, opa, upa.




Sonetos à Cidade da Bahia

Soneto I
Gregório de Matos

           Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
           Estás e estou do nosso antigo estado!
           Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
           Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

           A ti trocou te a máquina mercante
           Que em tua larga barra tem entrado
           A mim foi me trocando, e tem trocado,
           Tanto negócio e tanto negociante.

           Deste em dar tanto açúcar excelente
           Pelas drogas inúteis, que abelhuda
           Simples aceitas do sagaz Brichote.

           Oh se quisera Deus, que de repente
           Um dia amanheceras tão sisuda
           Que fôra de algodão o teu capote!


Soneto II

           A cada canto um grande conselheiro
           Que nos quer governar cabana e vinha;
           Não sabem governar sua cozinha
           E podem governar o mundo inteiro.

           Em cada porta um bem freqüente olheiro
           Que a vida do vizinho e da vizinha
           Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha
           Para o levar à praça e ao terreiro.

           Muitos mulatos desavergonhados,
           Trazidos sob os pés os homens nobres,
           Posta nas palmas toda a picardia,

           Estupendas usuras nos mercados,
           Todos os que não furtam muito pobres:
           E eis aqui a cidade da Bahia.



 
Aos vícios
Gregório de Matos

           Eu sou aquele que os passados anos
           Cantei na minha lira maldizente
           Torpezas do Brasil, vícios e enganos.
 
           E bem que os descantei bastantemente,
           Canto segunda vez na mesma lira
           O mesmo assunto em plectro diferente.

           Já sinto que me inflama e que me inspira
           Talia, que anjo é da minha guarda
           Dês que Apolo mandou que me assistira.

           Arda Baiona e todo o mundo arda
           Que a quem de profissão falta à verdade
           Nunca a dominga das verdades tarda.

           Nenhum tempo excetua a cristandade
           Ao pobre pegureiro do Parnaso
           Para falar em sua liherdade.

           A narração há de igualar ao caso
           E se talvez acaso o não iguala
           Não tenho por poeta o que é Pegaso.

           De que pode servir calar quem cala?
           Nunca se há de falar o que se sente
           Sempre se há de sentir o que se fa1a.

           Qual homem pode haver tão paciente,
           Que, vendo o triste estado da Bahia
           Não chore, não suspire e não lamente?

           Isto faz a discreta fantasia:
           Discorre em um e outro desconcerto
           Condena o roubo, increpa a hipocrisia.

           O néscio, o ignorante, o inexperto
           Que não elege o bom, nem mau reprova
           Por tudo passa deslumbrado e incerto.

           E quando vê talvez na doce trova
           Louvado o bem e o mal vituperado
           A tudo faz focinho, e nada aprova.

           Diz logo prudentaço e repousado:
           - Fulano é um satírico, é um louco,
           De língua má, de coração danado.

           Néscio, se disso entendes nada ou pouco,
           Como mofas com riso e algazaras
           Musas, que estimo ter, quando as invoco.

           Se souberas falar, também falaras
           Também satirizaras, se souberas
           E se foras poeta, poetizaras.

           A ignorancia dos homens destas eras
           Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
           Que a mudez canoniza bestas feras.

           Há bons, por não poder ser insolentes,
           Outros há comedidos de medrosos,
           Não mordem outros não - por não ter dentes.

           Quantos há que os telhados têm vidrosos,
           E deixam de atirar sua pedrada,
           De sua mesma telha receosos?

           Uma só natureza nos foi dada
           Não criou Deus os naturais diversos;
           Um só Adão criou e esse de nada.

           Todos somos ruins, todos perversos,
           Só nos distingue o vício e a virtude,
           De que uns são comensais, outros adversos

           Quem maior a tiver do que eu ter pude,
           Esse só me censure, esse me note,
           Calem se os mais chitom, e haja saúde.